sábado, 30 de maio de 2020

O compartilhador-geral do Palácio do Planalto



Enquanto Donald Trump dizia que o Brasil escolheu um caminho diferente de combate ao coronavírus e está passando por um período muito difícil (com 27.878 mortes e a suspensão da entrada nos EUA de viajantes vindos do país), Filipe Martins, militante virtual lotado no terceiro andar do Palácio do Planalto como assessor internacional, batia boca no Twitter com o humorista Danilo Gentili e o youtuber Nando Moura.

Depois de uma série de farpas trocadas, Nando Moura publicou uma foto em que Martins aparece sentado no sofá com Bolsonaro e escreveu que “hoje o Brasil é visto como um pária no mundo graças aos ‘bons’ conselhos” do assessor, que Danilo Gentili chamou em seguida de ‘Talentoso Ripley de Sorocaba’, em referência ao sociopata – interpretado no cinema por Matt Damon – personagem que sabia fazer pose para subir na vida, até precisar de métodos mais drásticos para manter sua mamata.

Para um negacionista das fake news bolsonaristas e do gabinete do ódio, Martins teve uma reação curiosa: passou a retuitar uma série de postagens de contas diferentes que continham rigorosamente o mesmo texto com ataques a Gentili e Moura. Flagrado explorando mais uma ação coordenada da militância que espalha fake news nas redes sociais, Martins apagou os compartilhamentos. Mas os prints são eternos, assim como as acusações alheias de que o assessor de Bolsonaro, sem querer, teria ‘logado’ na conta ‘errada’ – a oficial – para turbinar a ação, também registrada em vídeo. Fonte: Por Redação o Antagonista.

Considerações:

Os robozinhos oficiais do Planalto agem descaradamente contra a sociedade, que discorda da forma suja, pérfida e não republicana como Jair Bolsonaro governa o país.
Os robozinhos oficiais do Planalto são como ingênuos papagaios de estimação, disparam repetições de mensagens como se os demais mortais não tivessem a capacidade de identificar a fonte criminosa da ação.

Mas o STF vai cortar a crista de cada calhorda, mesmo contra as ameaças do despótico Jair Bolsonaro, a maior decepção, que até hoje não fez nada de positivo ao Brasil, mostrou-se pusilânime e de forma equivocada enfrenta a Covid-19 com o desprezo às recomendações científicas.

E para culminar o caótico quadro do governo Bolsonaro, a fatídica reunião do conselho de ministros, revelada por ordem do decano  do STF, Celso de Melo, verdadeiro circo dos horrores, dos xingamentos, dos palavrões chulos, das acusações levianas, das ameaça às instituições, expôs  o modus operandi do governo e o vídeo reafirmou a veracidade do depoimento do ex-ministro Sérgio Moro.
                               
“O vídeo traz uma fala bastante clara do presidente dizendo que não mediria esforços para interferir em estrutura governamental – no caso, a Polícia Federal – para proteger familiares e amigos. Isso corrobora a versão do ex-ministro Sérgio Moro”, diz Eloísa Machado, professora de direito constitucional na FGV Direito de São Paulo.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

E daí? Diria Jair Bolsonaro ao procurar o Centrão


O presidente Jair Bolsonaro, acossado por seus equívocos ao lidar de forma não cordial com seus ministros,  com os profissionais da imprensa e desrespeitar as recomendações de isolamento social da OMS, agora sente a sua imagem se desgastar e resolve se socorrer, inclusive para não ser cassado, do colchão do Centrão, recheado de más intenções não republicanas.

De fato, política não é para gente séria. Política no país é a coisa mais sórdida que existe. Veja só, Bolsonaro em campanha empinava a bandeira de combate à corrupção, ao fisiologismo espúrio do toma lá, dá cá, mas não durou muito para o capitão se indispor com Sérgio Moro, considerado o inimigo número um da corrupção e descer ao submundo da política para pedir apoio.

E foi bater na porta do que pior existe em matéria de composição política, o Centrão, ao qual o general Augusto Heleno integrante do governo, em vídeo de 2018, fez as  seguintes considerações pejorativas: “Se gritar pega Centrão (ladrão), não fica um meu irmão”, cantarolou o general.

Assim, depois dessa adesão ao Centrão, a sociedade gostaria de saber se o general Augusto Heleno vai continuar no governo.

Mas vamos a alguns comentários sobre as seguintes manchetes:

(1)    Em troca de apoio, “O governo nomeou o ex-chefe do Procon de Pernambuco para dirigir o Dnocs, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, que tem um orçamento de R$ 1 bilhão, indicado pelo senador Ciro Nogueira e deputado Arthur Lira, do PP”.

 
(2)    Em troca de apoio, “Um ex-assessor do ex-ministro Geddel Vieira foi nomeado nesta quinta-feira (28/5) a chefe de gabinete do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A nomeação de Marco Antônio Ferreira Delgado foi assinada pelo ministro do Turismo, Marcelo Álvaro, e publicada no Diário Oficial da União (DOU) desta quinta-feira (28/5).

(3)    “Datafolha: 43% acham governo Bolsonaro ruim ou péssimo. A rejeição é recorde. É o pior índice de aprovação de presidentes desde 1989 a esta altura de um primeiro mandato.”
Quem acredita na seriedade e honradez de políticos brasileiros está bêbado ou sofre de alguma enfermidade mental,  tal é a canalhice de suas atitudes. E a afirmação do presidente Bolsonaro que iria combater a velha política era tudo conversa fiada pra boi dormir.

Da mesma forma que o presidente traiu a palavra dada ao ex-ministro Sérgio Moro de que não interferiria na pasta da Justiça, Bolsonaro,  ao se aproximar do Centrão, trai a promessa feita de que combateria a corrupção e a velha prática política. E vejam os exemplos de elementos do Centrão, alguns deles já condenados por corrupção ou ainda respondendo a processos na Justiça: Ciro Nogueira, Arthur Lira, Valdemar Costa Neto, Roberto Jefferson etc.

O país é vítima da manutenção do imoral instituto voto obrigatório,  que elege e reelege essa corja de políticos compromissada apenas com os seus interesses solertes. Trata-se de políticos pérfidos e que depois de eleitos se comportam como se fossem donos de seus mandatos. Respeitamos, no entanto, algumas exceções.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Pagamento de insalubridade para quem atua contra a Covid-19



Senadores propõem pagamento de insalubridade para os profissionais de saúde que atuam contra a COVID-19. Propostas neste sentido são dos senadores Romário (Podemos-RJ) e Rose de Freitas (Podemos-ES).

A propósito, não se tem notícia de iniciativa semelhante em outros países onde o coronavírus também está fazendo estragos. São as jabuticabas que só existem aqui.

Os políticos são muito hábeis em momentos de comoção social de aproveitar a situação para obter alguma vantagem. Até da Covid-19 querem fazer vitrine política para obter votos dos profissionais de saúde.

Todos os profissionais de saúde, quando abraçaram a profissão, sabiam do risco que correriam no exercício diário de suas atividades. Assim, a possibilidade de se contagiarem com alguma doença é perfeitamente plausível.

Respeita-se essa nobre profissão, mormente nesta fase delicada pela qual os agentes de saúde tentam se superar para salvar vidas. Mas não podem agora políticos - a pretexto de fazer um agrado à classe de saúde - elegerem a Covid-19 como doença sujeita à adicional de insalubridade.

A legislação nacional já prevê quais as atividades laborais estão sujeitas ao adicional de remuneração. Neste sentido, o Art. 7º, inciso XXIII da Constituição Federal contempla as atividades penosas, insalubres ou perigosas.

Que os denodados profissionais de saúde, nesta fase da Covid-19, merecem todo o nosso respeito, é indiscutível. Mas é preciso que a legislação seja reformada para contemplar a insalubridade dos serviços relacionados ao coronavírus.

Os profissionais de saúde ao meu sentir não querem reparos financeiros a título de insalubridade apenas por estarem atuando contra o coronavírus. Os profissionais de saúde, principalmente da rede pública, querem é o reconhecimento da classe através de remuneração salarial digna e ter condições de trabalhar em ambientes devidamente providos de toda a infraestrutura necessária para desempenhar a contento as suas atividades.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Após perder o pai para a covid, vereador muda de opinião sobre isolamento



Depois de ver grande parte de sua família infectada pelo novo coronavírus (COVID-19) e perder o pai para a doença, o vereador de Belém Sargento Silvano (PSD) mudou de opinião sobre o enfrentamento à pandemia. 

Desde o fim de março, quando defendia publicamente o fim do isolamento social e a abertura do comércio na capital do Pará, o parlamentar e pelo menos outros 10 familiares tiveram testes positivos. 

A luta contra o vírus mudou a atitude do político, antes defensor do presidente Jair Bolsonaro, que passou a criticar as decisões do Planalto.

No dia 27 de março, Silvano publicou texto em rede social defendendo a posição do presidente em cobrar de governadores e prefeitos a abertura do comércio. “Com 30 dias todos verão que o presidente Bolsonaro tinha razão”,escreveu. Em primeiro de abril, o vereador reafirmou a postura, dizendo ter ‘lado’ e não ser ‘traíra’. “Eu me abraço politicamente com qualquer um, menos com o inimigo. Eu tenho lado”, postou.

Já a partir de 12 de abril, Silvano mudou o discurso. “Eu estou do lado da ciência e não de políticos. Ainda acredito nos médicos, até que provem o contrário”, disse. Mas foi de 20 de abril em diante que o vereador começou a combater as falas do presidente. “Isso não é uma gripinha, como disse o Bolsonaro.

O presidente mente para o povo brasileiro. Bolsonaro perdeu o meu respeito! Falo de tudo que tenho sofrido com minha família nesses últimos dias. Misericórdia Deus”, publicou.

Criticado por apoiadores de Bolsonaro pelos comentários, Silvano, que ainda não havia sido infectado, reagiu mantendo sua nova posição e pedindo orações para a melhora na saúde de familiares, entre eles a esposa e o pai, internados. “Entre defender um lado político e minha família, não terei dúvida em escolher minha casa.

A verdade precisa ser dita ao povo brasileiro. O COVID-19 mata, e está matando muita gente. Abre os teus olhos pelo amor de Deus”, escreveu.

Em 24 de abril, depois de contrair e se recuperar do vírus, Silvano foi mais enfático em oposição ao presidente. “Sentido-me decepcionado com o presidente. Como ex paciente de COVID-19, e agora com a saída do Moro, foi o fim de tudo. Daqui a pouco, se continuar assim, vou começar a gritar #ForaBolsonaro”, disse. O pai do vereador ficou internado cerca de um mês com a doença e não resistiu.

“Agora defendo o lockdown. Meu pai, por exemplo, construiu um patrimônio, mas quando foi enterrado não levou nem a roupa do corpo. Foi enterrado no lençol do hospital e em um saco. O que significa isso? Que defendo o isolamento e lockdown. O emprego é importante, mas se tu morrer, vai sem nada, como aconteceu com meu pai. Estão brigando para abrir o comércio, mas se tu morrer, não vai levar nada, amigo", afirmou Silvano ao UOL.

 “Sou totalmente contra o Bolsonaro hoje, por uma postura louca dele, sem limites. Consegui graças a Deus abrir os meus olhos. Quem fala isso é um cara que deu um título a ele e o conhecia antes de ser candidato, ainda em 2017. Ninguém falava dele e tínhamos um relacionamento bom. Cheguei a andar com ele pelo Pará”, comentou o vereador.

“Fiquei muito triste com a postura dele, totalmente contrária da realidade, que é o pobre morrendo e o governo federal não investindo o recurso necessário. É fácil criticar quando o problema não chega na sua casa. Minha posição hoje é humanitária e não política. Luto hoje a favor da vida. Se as pessoas estão morrendo, tenho que esquecer o Bolsonaro. Que os críticos não sintam na pele a perda de um pai”, complementou em entrevista ao portal.
Fonte: Estado de Minas.

BREVES CONSIDERAÇÕES:

Foi preciso  o vereador sentir  a pimenta arder nos seus próprios olhos para perceber que estava equivocado ao seguir a orientação tresloucada do presidente Jair Bolsonaro. 

Assim como o vereador de Belém, antes um seguidor fanático do destemperado e irresponsável presidente da República, outros incautos obscurantistas  empedernidos, literalmente inebriados com o falso mito,   continuam a marchar na cadência determinada pelo capitão endemoninhado, que desdenha da ciência médica.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Mais um ministro deixa o governo: Nelson Teich não aguentou Bolsonaro

Agora, o espaço ministerial na Saúde está como o diabo gosta: Nise Yamaguchi ou Osmar Terra, ambos pró-cloroquina e fim da quarentena.
Bolsonaro, que decepção! Tem que ser julgado por um Tribunal Internacional por suas atitudes desumanas ao minimizar a gravidade da COVID-19 no Brasil, hoje, quase considerado o epicentro mundial da doença.
Se do lado de cá dos brancos, Bolsonaro pouco se preocupa com o efeito devastador da pandemia, imaginem do lado de lá dos povos indígenas, na Amazônia, abandonados a toda sorte, sem assistência médica e instrumental nas aldeias: muitos morrerão. Será um extermínio. E o governo brasileiro poderá responder criminalmente e ser julgado por crime contra a humanidade.
Somente mentecaptos e empedernidos seguidores do capitão continuam lhe dando apoio. Trata-se de um despótico dirigente que desrespeita os seus próprios ministros e que não sabe se comportar de acordo com os pressupostos do Estado Democrático de Direito
Com a exoneração do Ministro da Saúde Nelson Teich, sobe para nove o número de ministros que deixaram o governo: Luiz Henrique Mandetta (Saúde), Sérgio Moro (Justiça e Segurança), Gustavo Canuto (Desenvolvimento Regional), Osmar Terra (Cidadania), Floriano Peixoto (Secretário Geral), Gustavo Bebiano (Secretário Geral), Ricardo Veléz (Educação) e Carlos Santa Cruz (Secretaria de Governo).
Causa estranheza que membros das Forças Armadas ainda lhe deem sustentação. Prepotente ao extremo, Bolsonaro considera-se acima dos demais poderes, desrespeita a recomendação mundial da saúde, peita a Suprema Corte e o Congresso,  e de forma ditatorial proclama que todos os ministros têm que estar alinhados às suas determinações,  mesmo que estas afrontem a racionalidade e o bom senso, como ficou bem demonstrado com o pedido de exoneração apresentado pelo recém-ministro da Saúde, Nelson Teich, que veladamente foi embora por discordar do presidente Bolsonaro no trato da COVID-19.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Os pedidos de impeachment contra o presidente da República não podem ser ignorados pelo Congresso Nacional


A grave crise por que passa o país em decorrência dos efeitos da Covid-19 não é uma situação indesejada que afeta apenas o Brasil. O mundo todo sofre com a pandemia.
Agora, o Congresso não pode ficar a meio pau funcionando a ponto de ignorar os pedidos de natureza disciplinar contra atos do presidente da República.
 Recentemente, de forma bombástica, o ex-ministro Sérgio Moro devolveu o boné ao Planalto alegando interferências não republicanas na pasta da Justiça pelo primeiro mandatário do país. O que levou o STF - uma vez instado por partido político - em decisão monocrática do ministro Alexandre de Moraes a suspender a nomeação do novo diretor-geral da Polícia Federal, Alexandre Ramagem,  por infringir princípios constitucionais.
A crise da Covid-19 é grave, como também se reveste de gravidade o comportamento do senhor presidente da República diante do país. Portanto, não podemos  fazer vistas grossas às irregularidades praticadas por políticos, mormente aquelas supostamente atribuídas ao presidente Jair Bolsonaro e que culminaram na demissão do ex-ministro Sérgio Moro.

Como já insinuou o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, a nação não pode se envolver com pedidos de impeachment nesta fase da Covid-19. Ora, pelo que se sabe,  as instituições públicas estão todas funcionando: Legislativo, Judiciário e Executivo.

Então, tem-se de encontrar época adequada para apreciar questões de natureza disciplinar que ferem o decoro da República? Que país estranho é este? Algum país perdido no espaço sideral?
As investigações e instaurações de processos disciplinares no Parlamento têm que seguir o seu curso normal. O Parlamento foi eleito para cumprir as suas obrigações constitucionais e entre elas as estabelecidas nos artigos 51 e 52 da Constituição Federal.


sábado, 9 de maio de 2020

A farsa dos caixões vazios usados para minimizar mortes por Covid-19



É isso aí, uma  mentira contada e repetida várias vezes por muitos acaba  tomando ares de verdadeira.

É o que está ocorrendo com inescrupulosos indivíduos desalmados, tentando minimizar os efeitos do coronavírus para defender o governo de Jair Bolsonaro. E dentre esses ou essas desalmadas está a deputada federal paulista Carla Zambelli, que tentou comprar a honra do ex-ministro Sérgio Moro.

Essa parlamentar irresponsável vai ser processada pelo governo cearense por ter divulgado mentiras “fake news”, como bem explicita o presente texto. Como se observa a patrulha bolsonarista está em plena atividade para disseminar mentiras.

“A farsa dos caixões vazios usados para minimizar mortes por covid-19

Uma série de publicações com boatos sobre caixões vazios ou com pedras, em meio à pandemia do novo coronavírus, tem circulado nas redes sociais nas últimas semanas. Informações falsas e imagens e notícias de anos anteriores compartilhadas massivamente buscam minimizar ou contestar o atual cenário de mortes em decorrência da covid-19, doença causada pelo vírus, no Brasil.

"Caixões sepultados vazios em SP e no Amazonas. Covas abertas apenas para a #globolixo exercitar o mau caratismo (depois aterradas). Não é só nesses dois estados, não, tem mais aí", escreveu um homem em seu perfil no Facebook. O texto é acompanhado de duas imagens de caixões vazios e abertos. Foram mais de 1,9 mil compartilhamentos na publicação, feita em 30 de abril.

Mas segundo a Agência Lupa, especializada em checagem de informações, uma das fotos é de um caixão abandonado na beira da estrada há mais de dois anos, entre os municípios de Arari e Vitória do Mearim, no Maranhão. A outra imagem é de um caixão abandonado em João Pessoa, na Paraíba, em agosto de 2015.

Um levantamento apontou que 30% dos vídeos e fotos mais compartilhados sobre o novo coronavírus em grupos de WhatsApp, na semana passada, eram fake news sobre caixões vazios. Os dados são dos grupos Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), e Eleições Sem Fake, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em apuração feita em mais de 500 grupos do aplicativo de conversa.

"Essas notícias falsas fazem com que as pessoas desacreditem nas informações que passamos. Muitos ficam pensando que nossas informações sobre os óbitos são falsas. Isso nos atrapalha demais", relata uma enfermeira de Manaus, que pediu para não ser identificada. O Amazonas, que enfrenta colapso no sistema de saúde, costuma ser um dos mais citados nas fake news.

O filósofo Pablo Ortellado, professor da USP, afirma à BBC News Brasil que o compartilhamento de fake news no atual contexto da pandemia é parte de ações negacionistas sobre o novo coronavírus. "É como se as notícias reais fossem para 'causar terrorismo' na população. Podemos observar que as pessoas que mais acreditam nessas fake news são as que menos estão em isolamento social", declara.

Notícias falsas que causarem pânico, principalmente no atual contexto da pandemia, difamarem alguém ou acusarem sem provas podem terminar em punições legais.

As fake news

Nesta quinta-feira (7), o Brasil ultrapassou a marca dos 9.000 mortos pelo novo coronavírus. Já foram registrados mais de 135 mil casos. Nos três últimos dias, os números diários de óbitos chegaram ao patamar de 600.

Diante do atual cenário da pandemia no país, as fake news se tornam empecilhos para a conscientização das pessoas sobre o Sars-Cov-2, nome oficial do novo coronavírus.

"As fake news são sempre danosas, especialmente neste momento. Gerar esse ruído na informação correta prejudica a população que mais precisa de ajuda. Isso faz com que aqueles menos escolarizados e com menos capacidade de interpretação acreditem que estão acontecendo coisas como o enterro de caixões vazios", declara Patrícia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta, ONG que trabalha na defesa da liberdade de expressão e que possui iniciativas de combate à desinformação.

As notícias sobre supostos caixões sem corpos foram reforçadas pela deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP). Ela afirmou, em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, que no Ceará há casos de caixões enterrados vazios em meio à pandemia. Segundo ela, a afirmação é comprovada por uma foto de uma "moça carregando um caixão com um dedinho", como se estivesse encenando um enterro.

Zambelli não apresentou qualquer prova sobre a afirmação. Posteriormente, disse que recebeu as imagens sobre os supostos caixões vazios por meio de duas pessoas, mas não deu mais detalhes.

As declarações da deputada causaram indignação no governo do Ceará, que as classificou como inconsequentes e afirmou que irá à Justiça contra a parlamentar. "Tais declarações são um insulto aos profissionais de saúde cearenses e um desrespeito às famílias das vítimas, que já sofrem neste momento tão difícil", disse nota de repúdio do governo cearense.

Apesar de Zambelli não detalhar, uma das fake news que viralizaram nas últimas semanas mostra justamente uma mulher que estaria carregando um caixão nas pontas dos dedos. Nos comentários da imagem, diziam que o caixão estava vazio, por isso ela não precisaria fazer esforços. A Agência Lupa, porém, mostrou que a imagem foi modificada. A original, publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, foi cortada para esconder que o caixão estava apoiado sobre uma mesa improvisada.

Propagar a desinformação

Para pesquisadores, há casos de fake news criadas por pessoas que realmente acreditam naquilo. Porém, os especialistas afirmam que boa parte das notícias mentirosas surgem por meio de pessoas com o objetivo de propagar a desinformação, conscientes de que aquilo que estão compartilhando não é verdade.

"Boa parte dessas fake news são criadas para reforçar aquelas ideias que a pessoa defende. Uma das estratégias é que haja vídeos e áudios com muitos sotaques, de diferentes regiões do país, para gerar a convicção de que aquilo realmente é uma realidade e acontece em vários lugares", diz Ortellado, da USP.

Segundo o filósofo, um dos principais meios de surgimento dessas notícias falsas é o WhatsApp. "É um aplicativo que não pode ser monitorado totalmente, pois há muitos grupos privados, cujos conteúdos são criptografados. Então, fica praticamente impossível descobrir onde começou aquela fake news", explica.

Em muitos casos, o compartilhamento de fake news não é considerado ato criminoso. No entanto, as consequências da notícia falsa podem ser avaliadas por autoridades e culminar em ações judiciais.

Notícias falsas que causarem pânico, principalmente no atual contexto da pandemia, podem terminar em punições. "Pode ser enquadrado como uma contravenção penal por causar pânico ou tumulto. Se essa afirmação de enterrar caixões vazios gerar pânico, a pessoa pode ser responsabilizada por isso e pode ser multada por meio do pagamento de cestas básicas", detalha o advogado Marcelo Crespo, doutor em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Direito Digital.

"Além de contravenção penal, uma fake news pode se caracterizar como crime contra a honra, caso atribua essa mentira a alguém, e o responsável pela notícia falsa pode responder por injúria e difamação. Também pode ser caso de denunciação caluniosa, que acontece se a pessoa diz algo sem ter nenhuma prova e as autoridades começam a apurar", acrescenta o especialista.

A condenação por difamação varia de três meses a um ano de detenção, enquanto a por injúria varia de um a seis meses. Já a por denunciação caluniosa pode chegar a oito anos de prisão.

Especialistas orientam que é importante que as pessoas tenham cuidado ao se informar. Identificar a fonte da notícia — muitas das fake news não têm autoria clara — e a data da informação são itens fundamentais. "Há muitas fotos e notícias antigas, como de casos de caixões vazios em anos anteriores, que são usadas agora como se fossem atuais e tivessem relação com o coronavírus", ressalta Blanco, do Instituto Palavra Aberta.

Caso de polícia

Nesta semana, a Polícia Civil de Minas Gerais instaurou um inquérito para apurar um vídeo no qual uma mulher afirma que há caixões sendo enterrados com pedras em Belo Horizonte. Na gravação, ela afirma que autoridades locais querem aumentar os dados sobre mortes por covid-19 no município. Ela cita o prefeito da capital mineira, Alexandre Kalil (PSD), como um dos responsáveis.

"Aqui em Minas está acontecendo um caso muito engraçado, principalmente em Belo Horizonte. Estão enterrando um monte de gente com o coronavírus. A própria família está enterrando, porque não está dando tempo para os coveiros enterrarem, para não ter aglomeração de pessoas. Mandaram desenterrar os caixões para ver se era coronavírus. Sabe o que tem dentro do caixão? Pedra e madeira. Palhaçada, não?", diz a mulher, em um vídeo que viralizou nas redes sociais.

A Polícia Civil de Minas Gerais afirmou que checou a declaração dela e constatou que o vídeo apresentava notícias falsas. Em razão disso, a mulher poderia responder por denunciação caluniosa, difamação contra autoridade pública municipal e também a contravenção penal de produzir pânico e tumulto.

"As pessoas devem ter a consciência na hora de produzir ou propagar qualquer tipo de informação nas redes social. As atitudes na vida virtual também têm consequências na "vida real", podendo responder por crimes de injúria, calúnia ou outros mais graves. Inclusive, a denunciação caluniosa como esse caso que é investigado", declarou o delegado Wagner Sales, que está apurando o caso.

Após a polícia abrir o inquérito, Valdete Zanco, responsável pelas afirmações, fez um novo vídeo para se desculpar. "Quero pedir perdão para o prefeito de BH, para o governador, para o Estado e para todas as famílias que se sentiram entristecidas com tudo aquilo. Não era a minha intenção. Não propaguei, mas quero dizer que estou arrependida, sofri bastante e estou aqui pra pedir desculpas", disse a mulher.

Em nota, a defesa dela disse que Valdete se apresentou à delegacia de Jacutinga, no Sul de Minas Gerais, e se colocou à disposição da polícia. Ela argumentou que viu no Facebook uma publicação sobre caixões vazios em Belo Horizonte e depois ouviu um cliente, da loja em que ela trabalha, comentar sobre o mesmo assunto. Em razão disso, segundo o advogado Alexsander Pereira, ela acreditou que a história fosse verdadeira e gravou o vídeo. A mulher justificou que o objetivo era apenas informar pessoas próximas, mas a gravação começou a ser compartilhada massivamente.

O caso continua em investigação pela Polícia Civil mineira."

Fonte: BBC News.