segunda-feira, 20 de abril de 2026

CPI: Entre o Silêncio e o Melindre


A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do crime organizado terminou de forma que deixou mais perguntas do que respostas. A substituição de dois senadores, no último dia de trabalhos, e a ausência de indiciamentos de membros de facções criminosas no relatório que não foi aprovado levantam suspeitas legítimas sobre a condução do processo. Se não havia nada a esconder, por que o governo trabalhou para esvaziar a CPI em sua reta final? 
O arquivamento por votação tendenciosa não apenas depõe contra a República, mas também mina a credibilidade dos próprios instrumentos de investigação parlamentar. Ou se acredita na função das CPIs e CPMIs como mecanismos de fiscalização, ou se revoga sua existência. O meio-termo, em que se cria a aparência de investigação sem resultados concretos, apenas reforça a sensação de que se busca proteger suspeitos de irregularidades. 
Mais intrigante ainda foram as manifestações de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que reprovaram o resultado da CPI com indignação. Se a Corte se considera de consciência limpa, não deveria temer investigações. O melindre público de ministros como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, contrastando com a proposta de um código de ética feita por Edson Fachin, sugere uma resistência preocupante à transparência. Afinal, quem não deve não teme. 
O episódio expõe um contorcionismo institucional: de um lado, um governo que atua para neutralizar a CPI; de outro, ministros que se irritam diante da mera possibilidade de serem investigados. O resultado é um vazio político e jurídico, em que a sociedade fica sem respostas e com a sensação de que os mecanismos de controle foram sabotados. 
Se a República deve ser construída sobre pilares de responsabilidade e ética, não pode se dar ao luxo de arquivar investigações por conveniência. O silêncio e o melindre não fortalecem instituições — apenas corroem a confiança pública. 

Nenhum comentário: